A lenda do Candiru. Será que é lenda mesmo?

4/08/2015 às 10h08

A região amazônica, com sua beleza exuberante, esconde muitas lendas como a do “Boto Tucuxi”, a “Cobra grande” e o “Candiru”.Mas será que todas são somente lendas? 
Eu posso afirmar para vocês, meus leitores que a última, a do peixe Candiru, com sua capacidade de penetração em orifícios do corpo humano é a mais pura realidade.
É verdade que os médicos urologistas que atendem em serviços de urgência estão acostumados às causas mais freqüentes de sangramentos pela uretra como pedras , infecções e até mesmo alguns casos de corpos estranhos. Mas, sem dúvida , um peixe dentro da uretra é incrível!
Eu atendi um paciente de 23 anos, do sexo masculino , que procurou o serviço de urgência com extrema dificuldade para urinar e sangramento pela uretra , com história de que há 3 dias sofrera um ataque por um peixe da região amazônica conhecido pelo nome de CANDIRÚ e que o mesmo havia penetrado em sua uretra quando estava urinando dentro do rio, referia que tentou segurá-lo, mas era muito liso e parecia ser de pequeno tamanho. Quando o examinei, o paciente apresentava-se descorado com febre , forte dor no pênis ,impossibilidade de urinar, sangramento pelo pênis e grande inchaço de bolsa escrotal . O levei ao centro cirúrgico , e , sob anestesia , realizei uma cistoscopia ( endoscopia da uretra e bexiga ) para diagnóstico e documentação do caso. Identificamos que o peixe era de grande tamanho ( 12 cm de comprimento por 1,5 de largura ) ocupando toda a uretra e com a cabeça perto do esfíncter urinário (o músculo que controla a urina ) e provavelmente, enquanto vivo o peixe tentou penetrar em bolsa escrotal, explicando o importante inchaço da mesma . 
Tive muitas dúvidas em como retirar este peixe da uretra devido a extrema delicadeza e seriedade do caso.
Pensei em abrir o períneo ( região entre a bolsa escrotal e o ânus ) e retirá-lo por esta via, mas o risco de infecção e de impotência seria muito alto.
Foi então que após várias lavagens da uretra e com equipamento endoscópico adequado e câmeras para visualização dentro da uretra consegui retirá-lo, após cerca de duas horas de cirurgia. O paciente permaneceu internado com cuidados clínicos inerentes ao caso e , no seguimento de um ano , não apresentou estreitamento da uretra, impotência e /ou qualquer outra complicação. 
Este peixe foi tombado na coleção ictiológica do INPA ( 15590 ) e positivamente identificado como da ordem Siluriformes ; Família Trichomycteridae e Gênero Plectrochilus.
Provavelmente o ataque ocorrera por alguma substância na urina humana que atraiu este peixe. De todas as formas não aconselho a ninguém urinar dentro do rio sem proteção (sunga ou biquíni). 

Dr. Anoar Samad

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